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A simbologia das palavras
Por Hélio Strassburger
16 de novembro de 2008
“No interior das frases, ali mesmo onde
a significação parece ter um apoio mudo em
sílabas insignificantes, há sempre uma nomeação
adormecida, uma forma que guarda fechado entre
suas paredes sonoras o reflexo de uma
representação invisível e todavia inapagável.”
Michel Foucault
A sensação de que as palavras nem sempre conseguem traduzir as manifestações do espírito não é nova. Mesmo quando se pensa esclarecer adequadamente seus segredos, a natureza logo surge sob nova roupagem. Como se quisesse dizer algo mais, nas contradições a denunciar um só olhar.
Na pluralidade dos eventos da vida, a expressividade de cada pessoa se manifesta – também - como incompletude. Parcialidade dos processos de re-significação e viver descontinuado, por onde outras verdades seguem incontáveis. Meandros de invisibilidade em busca dessas realidades entreabertas.
Ao esconde-esconde das narrativas, miragens de múltiplas faces estruturam seu viés de esquiva e rasuram a versão estruturada nas unanimidades. Indícios de estranheza tornam legíveis as singularidades transgressoras, ao revelar refúgios na trama discursiva dos convívios. Encenação a desvelar novas coreografias no território simbólico da subjetividade.
Michel Maffesoli assim refere: “É instrutivo observar que, além da ‘língua oficial’, a do pensamento conforme, existe uma multiplicação de idiomas, discursos tipicamente tribais, enraizados nas práticas cotidianas, de qualquer ordem que sejam: musicais, esportivas, sexuais, culturais e até políticas ou mesmo intelectuais.”
Nesses lugares-esconderijo, onde nem tudo é possível descrever adequadamente, também se pode sentir-perceber rastros de outras línguas. Um estranho devir desses exílios da pluralidade – em um só - segue incontável. Ao abrigo de um mundo só seu a pessoa aprecia desligar-se da objetividade. Experiencia ânimos de paradoxo a embalar sonhos de aspecto irreconhecível.
No mosaico das tentativas para ler as verdades delirantes, se demonstra à escassez das lógicas da tradição. Referencial empobrecido na diversidade dos eventos inclassificáveis ao viver singular.
As impressões e apontamentos desses achados, mesmo quando levados ao pé da letra, pela literalidade das transcrições, é incapaz de esgotar a imensidão humana ainda sem vocabulário. A espessura das brumas parece aumentar a dificuldade para as epistemologias do consenso. O visar desconexo insinua seus vislumbres em uma linguagem embaçada.
Heidegger ajuda a decifrar o viés paradoxal presente nas teias discursivas: “Tanto mais um pensamento é original, mais rico torna-se o seu impensado. O impensado é o maior dom que um pensamento pode oferecer.”
A busca por adequar convívios elabora semelhanças, facilmente confundidas como igualdade. As lógicas para manutenção de uma só verdade, demonstram sua fragilidade ao querer excluir as diferenças. Ao olhar das pretensas certezas, resta a subversão dessas releituras contrariadas. Assim a diversidade pode se constituir em algo mais que exceção, pode significar ameaça aos códigos consagrados.
Os múltiplos personagens da ficção se alternam em palavras ainda sem sentido. Rumores exóticos apressadamente classificados nalguma forma de insensatez. Na interseção com os devaneios as expressividades podem fazer ver outros recantos do existir.
No caso da desrazão, sua manifestação discursiva aprecia conter segredos vistos como teatralização. Para além desse jogo de cena, o ‘louco’ escolhe quem vai merecer sua tradução das coisas que vê, escuta e sente. Hieróglifos de aspecto ilegível na contradição significativa com as analíticas de uma forma só.
Ernst Cassirer compartilha: “É característico da natureza do homem não estar limitado a uma única abordagem específica da realidade, mas poder escolher seu próprio ponto de vista e assim passar de um aspecto das coisas para outro.”
Um ser mutante movimenta-se entremeios de lógica difusa. De aspecto insignificante, seus ditos de maldição contêm ânimos de distorção. Sua atitude nômade e de saber errático pode acentuar crises e mudanças ao seu redor. Uma pessoa a inspirar-se na mobilidade inexplorada dos rituais.
Ao olhar delirante a realidade se reapresenta como um espetáculo sempre novo. Incontáveis dialetos ultrapassam as fronteiras do verso bem alinhado. Parece querer dizer algo mais, nos simulacros de ser indizível. Paradoxos de sagrado e profano parecem escolher suas dialéticas para anunciar outras fontes de saber, quem sabe até, uma epistemologia da loucura.
Talvez o dicionário tão íntimo de cada um, possa oferecer algum esboço para fora de si. A prosa diária dos convívios segue percursos nem sempre lineares de entendimento e compreensão. Sons indescritíveis apreciam a diversidade, até então impensável, dos jeitos de ser incomum. Um logos de originalidade se camufla no dizer incerto das circunstâncias.
Na ótica da ciência objetiva, a pessoa internada pode dizer coisas incríveis. Significados ainda sem representação, podem desvendar exílios intermináveis. Lucidez desatinada no esboço ainda sem sentido, entremeios de ontem e amanhã.





