
Chove lá fora e o ambiente parece serrano. Folhas caídas, frio, chuva fina e quase ninguém na rua. Lá vou eu em busca do pão nosso de cada dia. Caminho sozinho. Penso. Se penso, logo existo, né? Pois é, assim caminhamos pela vida. Fazendo coisas simples e filosofando sempre. Filosofar é preciso, podem acreditar. Pois nesse pequeno trajeto, entre minha casa e a padaria, observo a cidade. Aonde será que perdemos aquilo que viemos procurar? Aí precisamos refletir sobre o que seria uma perda. Seria algo que supomos ter? Na realidade é uma privação. Podemos não ser os donos, pois pode ser algo que apenas necessitamos. E necessitamos de tantas coisas, não é mesmo? Necessitamos de dinheiro, de roupas, de calçados, de remédios, de água, de comida, enfim... Coisas essas que fazem a vida girar, girar. Além disso, meus queridos leitores, necessitamos de flores, da terra, do céu, do mar, das nuvens e fundamentalmente de pessoas. Não há um ser humano, neste misterioso planeta terra, que possa ficar sem uma pessoa para se relacionar. A ausência do semelhante é o fim. Cada um de nós tem algo a procurar. Diferentemente dos animais, somos seres que abstraímos. Criamos ilusões e muitas vezes a perseguimos de forma errada. E se cometemos erros de procura talvez estejamos criando falsas ilusões. Ainda estou a caminhar em direção ao pão que um dia foi trigo e entendo enfim meus pensamentos. É que viemos morar num balneário que tinha mais ou menos doze mil habitantes e nossas ilusões eram outras. Queríamos paz, ar puro, praias limpas, ruas de terra. Queríamos gente simples e cortês, queríamos a sensação de que o tempo não passava. Queríamos o barquinho voltando cheio de peixes lá na Boca da Barra e o pescador, amigo, nos oferecendo uma bicuda. Queríamos esquecer a bicicleta na praça José Pereira Câmara e no dia seguinte buscá-la, no mesmo lugar. Queríamos o papo longo na porta da padaria Mania de Pão, a carne assada com salada de tomate do Bar do Sabiá, lá no Nova Aliança ou era Caranguejo? Queríamos o pôr do sol lá no quiosque da Maria, o piquenique no camping do bosque, queríamos observar a cidade do mirante da Av. Amazonas, a cerveja gelada no bar do Pompeu, lá no Mariléia, queríamos andar de pedalinho na praia do centro. Queríamos e fazíamos tudo isso. Assim desperto de minha reflexão e percebo que não conheço a vendedora que me atende, recebo o troco da caixa que não conheço, esbarro num semelhante desconhecido, e volto para casa com o sentimento de que continuarei procurando por algo que já não me pertence mais.